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A queda do Gripen



            Um dos assuntos mais comentados na última semana foi o vídeo da queda do Gripen 50% de escala pintado com a bandeira do Brasil no JetPower, um encontro de jatos que aconteceu na Alemanha algumas semanas atrás. Ouvi muitas coisas sobre esse acidente, que inclusive repercutiu fora do mundo do aeromodelismo. Depois de vários pedidos, resolvi apresentar a minha opinião sobre o acontecido.


Observem o tamanho da turbina e a criança dentro do cockpit


            Não pretendo julgar seja lá quem foi o responsável por isso, quero apenas mostrar o que pode ter ocasionado e também o que pode não ter ocasionado, depois de assistir o vídeo algumas vezes. Sei que o assunto é polêmico e respeito qualquer opinião minimamente fundamentada sobre o caso, vamos debater nos comentários!





            Primeiramente vamos aos absurdos e argumentos falhos:

            “O avião não suportou a vibração da turbina e por isso explodiu”. Quem já viu uma turbina funcionando sabe que ela não vibra. E mesmo assim, se estivesse vibrando, nem do chão ele teria saído: primeiro porque a rotação é tão alta (faixa de 70mil RPM), que já teria desintegrado no solo; segundo, o piloto não seria imprudente a ponto de tirar do chão um modelo sem condições de voo.

            “A turbina despaletou em voo”. Para quem não sabe, despaletar é o ato de perder pás quando em funcionamento. Pouco provável, pois a turbina era nova e o colapso estrutural não aconteceu no local da turbina, pelo contrário, seu alojamento desceu inteiro até o chão.

            “O material estava fadigado e por isso rompeu” Fadiga em um equipamento com menos de 40 voos? Sério? Isso para mim tem vários outros nomes, menos fadiga.

            “O servo arrancou o leme pelo comando ter travado”. Mesmo que tivesse arrancado o leme, isso não explica todo o colapso estrutural. E neste caso o mais provável seria ter arrancado o comando de lugar, e não o leme todo, pois ele não é a parte mais frágil do mecanismo.

            “Foi sabotagem, alguém danificou o leme, pois o Gripen não dormiu no mesmo quarto que o dono no hotel” Sério! Ouvi isso, mas não vou nem comentar, pois como disse, precisamos de um mínimo de fundamento.


            Absurdos ditos, vamos começar a analisar de verdade o fato:

            Este Gripen era peça única, construído artesanalmente em madeira balsa revestido com fibra de vidro, utilizava uma Turbina AMT 1300, pesava mais de 120kg, em escala 1:2 ou 50% (metade do jato real). Custou muito, mas muito dinheiro, apenas a turbina 37 mil euros (segundo informações). Pense então quanto o jato todo não custou.




            Por estes dados já podemos perceber que não lidamos com amadores, e sim com pessoas altamente gabaritadas, tanto na parte de construção e montagem, quanto na pilotagem.

            Segundo comentários, este modelo passou por uma inspeção/acompanhamento de projeto pelas autoridades competentes do país de origem. Ou seja, seguia as normas vigentes para a categoria, que se assemelha muito mais à aviação tripulada, que ao aeromodelismo.

            Todo equipamento, seja lá de qual gênero for, é especificado para se trabalhar dentro de certos parâmetros. Quando olhamos para a aviação, vemos que aeronaves mais modernas possuem sistemas que não a deixam extrapolar as especificações do fabricante - como: ângulo de ataque máximo, velocidade máxima, entre muitos outros - para garantir a segurança de voo e longevidade do avião.

            Analisando minunciosamente o vídeo, podemos perceber que o início de tudo foi a quebra do leme, que ocorreu no rasante de faca sobre a pista. O que podemos concluir: o leme do Gripen não suportou a manobra executada, isso é fato. O porque dele não ter suportado já não sabemos, e por isso entra no campo das especulações: Pode ter sido um flutter, falha de projeto, falha de construção, ou até mesmo falha de pilotagem, caso ele não tenha sido projetado para voar na faca.






            Logo após a saída do leme vemos uma grande desestabilização, colocando o Gripen em uma posição com alto ângulo de ataque. Instantes após, toda a estrutura se desintegra. Podemos concluir que a estrutura não aguentou o grande ângulo de ataque e rompeu. E caímos no mesmo dilema anterior: o modelo pode apenas não ter sido projetado para suportar estas forças, ou pode ter ocorrido uma falha de projeto/construção.







            Resumo do ocorrido: O leme não suportou a faca e quebrou, a quebra ocasionou uma desestabilidade que colocou o avião em um grande ângulo de ataque, o que ocasionou o colapso geral da estrutura.


            Julgar depois do fato ocorrido é fácil, o difícil é prever todas as condições possíveis durante o projeto, e encontrar uma solução viável para elas. Isso é a engenharia!

            Foi um extraordinário e exótico projeto, pena que durou menos que o planejado. O que nos resta são apenas as imagens e as lições.


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            Discorda do que foi apresentado? Deixe sua opinião aqui embaixo, vamos debater e aprender com o caso!



16 comentários:

  1. Sou amante do aeromodelismo a vários anos. Também construo e voo. Sou Eng civil, o que me ajuda a ser bastante criterioso. Nem Problema de turbina, nem fadiga nem nada. Durante a faca, o Leme não aguentou Aquele esforço e partiu!!! Obviamente era para ter aguentado dado a Grande área de conexão. Ao partir, o jato ficou numa posição "Angulo de ataque extremo" e com a velocidade, provocando um colapso total da estrutura. Dado a ser um modelo exclusivo, não pode contar com muito tempo de voo para poder ser identificado seus pontos fracos. Isso também reforça a minha tese do acontecido, que é muito semelhante a desse artigo. Parabéns. Fica as imagens fantásticas dessa obra de arte que se foi!!! Att, AlexReb.

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    1. Alex concordo com VC sou aerm.a trinta anos e mecânico de avião oque se percebe é que depois da faca o Leme balançou e pra mim o esforço feito durante a faca comprometeu totalmente o Leme q em seguida soltou de cima p baixo e com a velocidade a desintegração do resto.Uma pena o mais bonito que já vi voar...p min problema estrutural principalmente no comando vertical ele descolou bem passou bem mas depois da faca deu o problema ...os componentes da cauda são os mais exigidos e muitos acham q são as asas....abração

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  2. Pessoal, não da para concordar que um jato desse calibre tenha se desintegrado no ar, simplesmente porque o leme não aguentou a força. Com certeza tudo é feito para aguentar uma grande velocidade e exigindo grande resistência, eu nunca tinha visto isso. O leme se não aguentasse a faca teria quebrado para baixo, por causa do angulo do comando e isso não ocorreu. Por isso defendo uma tese mais plausível, ressonância gerada pela turbina sobre o parte da estrutura, no caso da balsa. Como quebrar um copo de cristal com vibrações sônicas. Claro que a ressonância começou no primeiro voo, assim neste voo já estava bem debilitada. Analisem minha opinião. Grato, Rogerio

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  3. Devido ao tamanho, é quase certeza que o estabilizador vertical seja desmontável, o que pode ter acontecido é um erro na hora de montar, ou a peça pode ter sido danificada no transporte, ou até levado um esbarrão que pode ter prejudicado a estrutura da peça, fazendo com que ela se desitegrasse em vôo e com a força G ocasionada pela mudança brusca de movimento fez com que o resto do avião entrasse em colapso!

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  4. Todos que estão nesse campo são movidos exclusivamente pela paixão.
    Sou operador de MultiRotores desde 2012, posso dizer que foi pioneiro
    no Estado Minas Gerais. Hoje, eu e meus colegas, acompanhamos com
    grande agonia e expectativa a regulamentação comercial do setor. Nao é fácil,
    é caro, o retorno é lendo e as autoridades mais atrapalham do que ajudam.
    Sobre o fatídico e lamentável colapso do Gripen, estou surpreso que se
    tratando da quantidade de licenças e agencia regulamentadoras, inclusive
    agências essas anunciadas durante a decolagem, nenhum deles se prestou para apontar uma possível falha. Seja projeto, material ou operacional.
    Então quero propor a seguinte reflexão: Pra que tudo isso, se o desfecho caso
    seja catastrófico, a responsabilidade é única e exclusivamente da equipe ou
    individuo envolvida diretamente com o Aeromodelo? Att, AlexPeres OVNI-Soluções Aéreas

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  5. Eu so não entendi pq a bandeira do Brasil, foi de sacanagem , sobre o 7x1 da alemanha ?

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  6. Numa visão muito simplista, acredito que a estrutura de madeira balsa não aguentou a pressão, principalmente pela escala do avião (50%). Todos os fatos acima apontados, realmente, fazem sentido. Mas se o avião tivesse seu conjunto estrutural de fibra, não "explodiria" no ar, ainda que o leme se soltasse. S. Agostini/MG.

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  7. Não devemos descartar nenhuma das hipóteses apresentadas.
    Construo e voo há algum tempo. Sou engenheiro mecânico. Posso afirmar que a união da estrutura da deriva com a fuselagem - numa área crítica da estrutura - é a mais precária na maioria dos aeromodelos de que tive a oportunidade de analisar para decidir-me a construir.
    Na maioria das vezes, fiz modificações consideráveis que resultaram em aeros de longa vida.
    Quanto à decoração, nada a mais do que uma alusão à decisão das autoridades brasileiras na opção de compra do projeto sueco ainda no seu estágio de protótipo pós homologado - ainda não foi testado em ação.
    A primeira fabricação será aqui no Brasil em uma fábrica que ainda será construída.

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  8. Uma pena o que houve. Mas, na tentativa de imaginar o que deu errado, pode se perceber que o voo desse jato era bastante lento. Dessa forma, quando no voo faca, a carga sobre o estabilizadoe vertical é ainda maior, pois, quanto mais lento, maior teve de ser seu ângulo de ataque e maior, portanto o arrasto gerado. Lembrando que, nessa condição, ele passa a funcionar como a propria asa. Ocorre que, diferentemente desse jato, os aviões acrobáticos possuem estabilizadores reforçados pra esse tipo de manobra. São, em muitos casos, presos por cabos de aço. Já até vi jatos fazerem faca, mas com velocidades muito superiores. Sobre o flutter, acho improvável, mas também não estaria descartado

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  9. Uma pena o que houve. Mas, na tentativa de imaginar o que deu errado, pode se perceber que o voo desse jato era bastante lento. Dessa forma, quando no voo faca, a carga sobre o estabilizadoe vertical é ainda maior, pois, quanto mais lento, maior teve de ser seu ângulo de ataque e maior, portanto o arrasto gerado. Lembrando que, nessa condição, ele passa a funcionar como a propria asa. Ocorre que, diferentemente desse jato, os aviões acrobáticos possuem estabilizadores reforçados pra esse tipo de manobra. São, em muitos casos, presos por cabos de aço. Já até vi jatos fazerem faca, mas com velocidades muito superiores. Sobre o flutter, acho improvável, mas também não estaria descartado

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  10. Faltou fibra e Resina... Mais Uns 20k. Obviamente iria precisar tb de mais uns 7k no bico pra ajustar o cg

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  11. Faltou fibra e Resina... Mais Uns 20k. Obviamente iria precisar tb de mais uns 7k no bico pra ajustar o cg

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  12. é gente foi muito triste, mas é so construir outro, erros e acertos.
    lamento muito
    abraços pessoal

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  13. Pra quem não sabe. A SAAB se sensibilizou e vai bancar um projeto novo totalmente do zero. Agora do jeito certo e muito mais detalhado.

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